O bar do Vitorino é o lugar mais sujo que conheço. Parei lá umas duas vezes porque é o único no caminho que sou obrigado a fazer todos os meses pra visitar um cliente. O banheiro não dá pra usar. Não tem sabonete, nem toalha, nem papel higiênico. Os copos são sujos e manchados; as toalhas das mesas rasgadas.
O táxi do Geraldo mais parece o bar do Vitorino. Imundo. Os bancos são sujos e rasgados. Tem um pedaço da mola do banco que já rasgou várias roupas de passageiros, segundo Geraldo.O carro é proprio, mas ele diz que é bobagem "investir nessas coisas" porque o dinheiro é curto. E o próprio Geraldo anda mal vestido e até cheira mal, o que deu a ele o apelido de "gambá" entre os colegas do ponto de táxi. Mas o que terá a ver o colápso do mercado financeiro mundial com o bar do Vitorino e o táxi do Geraldo?
O problema é que tanto o Vitorino quanto Geraldo entendem tudo de finanças internacionais. Lêem jornais o dia todo. Assistem todos os noticiários da televisão. Discutem finanças, macroeconomia e política como verdadeiros doutores. Os dois reclamam da vida o tempo todo. Dizem que os clientes estão desaparecendo e não querem pagar o que eles Vitorino e Geraldo, acham merecer pelo "duro trabalho" que fazem. Dizem desconfiar que até o sumiço de seus clientes é consequência dessa crise mundial da queda das bolsas internacionais.
É claro que não penso que as pessoas devam viver alienadas da realidade internacional e das notícias, mas minha pergunta é simples: Não deveriam o Vitorino e o Geraldo cuidar mais de seu bar e de seu táxi em vez de ficar tanto tempo se doutorando em finanças internacionais? Será que em vez de comprar jornais e revistas, discutir política e economia, não deveriam comprar uma vassoura, detergente e limpar o bar e o táxi, ou mesmo cuidar mais de suas imagens? Será que o sumiço dos clientes se deve realmente à crise internacional? Ou ao péssimo serviço que prestam?
Conheço muitas pessoas como o Vitorino o e Gerando. E você?
Pense nisso. Sucesso!!
Aritgo escrito por LUIZ MARINS (Antropólogo, consultor e foi eleito "Palestrante do Ano de 2006 - 9° Top of Mind".
Extraí esse artigo (e até o classifico como uma crônica), da revista TRIP, novembro de 2008.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
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